sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
SANTA SARA KALI
Nascimento no acampamento
Nascí entre as velhas tendas,
em meio ao falar dos Ciganos
que narram à luz da luaa fábula
de uma branca cidade distante.
Nascí na miséria, entre os campos
Nascí num dia triste de outono
ao longo da estrada envolta em neblina,
onde a necessidade chora junto aos pequeninos
e a dor destila quente entre os cílios.
Anjo à toa
GINNA GAIOTTI
Retrato
AUREA
RITA COSTA
VERONISE DOS SANTOS
Felicidade...
Os poetas, a homenageiam
Os romancistas,a descrevem...
Os filósofos,a contemplam
Mas,grande parte deles nem a conhece.
Os reis,tentam dominá-la
Mas,ela não se submete aos seus poderes
Os intelectuais,tentam entendê-la
Mas,ela os confunde.
Os famosos,tentam fasciná-la
Mas,ela prefere o anonimato
Os jovens dizem que ela lhes pertence
Mas,ela lhes diz que não se encontra
No prazer imediato e inconsequente.
Cientistas, acreditam
Que podem cultivá-la em laboratório...
Mas, ela enviou um claro recado
Dizendo - que aprecia
O cheiro de gente e de suas dificuldades.
A maioria das pessoas
Não entende a sua linguagem...
Esperam que ela se manifeste
Como fogos de artificios
Mas,ela ama o silêncio...
(...(Re... Elizabeth)
VERA LÚCIA
HELENA
Faça uma lista de grandes amigos,
quem você mais via há dez anos atrás...
Quantos você ainda vê todo dia?
Quantos você já não encontra mais?
Faça uma lista dos sonhos que tinha...
Quantos você desistiu de sonhar?
Quantos amores jurados pra sempre...
Quantos você conseguiu preservar?
Onde você ainda se reconhece,
na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora...
Quantos mistérios que você sondava,
quantos você conseguiu entender?
Quantos defeitos sanados com o tempo,
era o melhor que havia em você?
Quantas mentiras você condenava,
quantas você teve que cometer?
Quantas canções que você não cantava,
hoje assobia pra sobreviver ...
Quantos segredos que você guardava,
hoje são bobos ninguém quer saber ...
Quantas pessoas que você amava,
hoje acredita e amam você?
(Oswaldo Montenegro)
GINNA GAIOTTI
Canção
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
(Cecília Meireles)
Há doenças piores que as doenças
BERNADETTE MOSCARELI
PATRICIA
Traduzir-se
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Poema sujo
(…)
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Teresa nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu-se na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta
(…)
(Ferreira Gullar )
Além da Terra, além do Céu
CILMARA
Ainda que mal
Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.
(Carlos Drummond de Andrade)
O Amor Bate na Aorta
Cantiga do amor sem eira nem beira,
vira o mundo de cabeça para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for, é o amor.
Meu bem, não chores,
Hoje tem filme de Carlito!
O amor bate na porta
O amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.
Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.
Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...
(Carlos Drummond de Andrade)
Acreditei...
Acreditei que se amasse de novoesqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos
de "O Coração Disparado"
Poemas para a amiga
Poemas para a amigaE o amor com seus contrários se acrescenta
Camões
As vezes em que eu mais te amei
tu o não soubeste
e nunca o saberias.
Sozinho a sós contigo
em mim mesmo eu te criava
e em mim te possuía.
De onde vinhas nessas horas
em que inteira eu te envolvia,
nem eu mesmo o sei
e nunca o saberias.
Contudo, em paz
eu recebia o teu carinho,
compungido o recebia,
tranquilo em meu silêncio
e tão tranquilo e tão sozinho
que calmamente eu consentia:
- que ainda que muito tardasse
mais ainda, um outro tanto, eu sempre esperaria.
(Affonso Romano de Sant'Anna)








































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