quarta-feira, 19 de março de 2008

Para Bernadete


Escravo de meu corpo
Nasci, e vivo,
Num mundo de ansiedades insatisfeitas.
Energia da evolução.
Preso como a uma pegajosa cola
Assisto, impotente,
O desfilar de emoções inesperadas.
Sina apaixonamte.
Limitado pelo Livre-arbítrio
escolho, e sofro,
Os momentos gratos de amizades e amores.
Recompensa suprema.
Sem força ou movimentos
vejo, e sinto,
Serem arrancadas partes de meu corpo celeste.
Experiência dolorosa.
Escravo de meu corpo
Preso como a uma pegajosa cola
Limitado pelo Livre-arbítrio
Sem força ou movimentos
Posso optar,
Posso chorar.
Energia da evolução.
Sina apaixonamte.
Recompensa suprema.
Experiência dolorosa.
Posso chorar.


A COR DA LÁGRIMA


Por que a lágrima não tem cor?
Enquanto chorava, me pus a pensar.
Se fosse vermelha como sangue,
as minhas vestes poderiam manchar.
Se a lágrima fosse amarela,
a cor da alegria, expressar
tristeza jamais poderia.
Se fosse azul,
a cor da serenidade,
eu não choraria jamais.
Seria só tranqüilidade.
Se fosse branca
como pétalas de rosas,
não seriam lágrimas...
Mas pérolas preciosas.
Ainda mais uma vez
fiquei me questionando...
Por que a lágrima não tem cor?
Se ela fosse preta,
só expressaria o horror?
Por que será que
a lágrima não tem cor?
A lágrima não tem cor...
Porque nem sempre exprime dor.
E se ela fosse roxa,
como poderiaexpressar a alegria?
As lágrimas não têm corpor
que são expressões da alma.
Quando o espírito está chorando,
o coração diz: tenha calma!
Se a lágrima tivesse cor
deveria ter a cor do amor.
Ou mesmo a cor da paixão,
que as vezes invade o coração.
Ou talvez a cor da tristeza
que abala a alma e tira a calma,
mas faz em meu ser uma limpeza.
A lágrima não tem cor,
porque ela nos aproxima
do nosso Criador.
Se a lágrima tivesse cor,
eu só iria chorar de alegria.
Mas, e a lágrima da saudade?
De que cor ela seria?
E a lágrima da decepção,
de que cor seria então?
Se a lágrima tivesse cor
deveria ter a cor de um brilhante.
Como a lágrima é preciosa,
Deus deu-lhe a cor do diamante.
(Wayne W. Dyer)

Saudade...


Hoje preciso de você...
Quero colo, encostar minha cabeça no teu ombro,
Aninhar-me em teus braços,
Sentir as batidas do teu coração,
Envolver-me em teus braços, me perder em teus afagos.
Essa saudade que não passa, e nem disfarça a dor.
Sinto teu cheiro fragrância suave no ar,
Corro ao teu encontro, mais você não veio.
A saudade me enganou outra vez.
(Nanny Morena -19/03/2008 -Ás 15h00min)

Eu gostaria tanto...


Eu gostaria tanto,
de deitar minha cabeça
no teu colo,pra voar nas asas
dos teus sonhos
e mergulhar no oceano
das tuas vontades.
Eu gostaria tanto,
de me embriagar
no cheiro do teu corpo,
de me queimar nas labaredas
dos teus lábios
e me banhar na poesia
dos teus olhos.
Eu gostaria tanto,
de te arrancar dos braços
do teu mundo
e convidar o raio
de uma estrela
para pintar azul
no chão da nossa rua.
Eu gostaria tanto,
das minhas mãos
brincando em teus cabelos,
até que o véu da noite se rasgasse
e o teu sorriso amanhecesse em mim.
(Carlos Magno)

O ÚLTIMO INSTANTE


Os ponteiros do meu relógio
Estão quase se encontrando.
Não haverá abraços,
E nem aperto de mão;
Tampouco um discreto sorriso...
(Agamenon Troyan)

O OLHAR DE YOLANDA

Entre eu e você
Existe um enorme abismo
Que precisa ser vencido
Com diálogos e confissões.

Quando estou só
Sinto falta do teu olhar,
Quando estamos juntos
Sinto falta de nos comunicar.
(Agamenon Troyan)


Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você sesentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono dequem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar esofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
Eque se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.
(Victor Hugo)

Escada do Paraíso


Corpo feito de vagas
agitadas e búzios
sonolentos. Oh corpo
de mulher, entre medusas
e portulanos de areia.
Corpo seduzido pela
luminosidade dos cardumes
pelo movimento sinuoso
das marés. Oh corpo
de terracota e cristal.
Corpo aderido ao sexo
de Deus. Corpo nu
de gaivota em tarde azul
escada do paraíso.
Oh corpo varando a noite
E o dia em diagonal.
Corpo, oh corpo de lava
e lêvedo, fendido
pela cintura de um deus:
eu te celebro
nesta canção. Vertente e foz
dos pecados capitais.
(Francisco Carvalho)


Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser
-se a luz é tanta,
como se pode morrer?
(Eugénio de Andrade)


A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo
cintila,
a boca espera
(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)
espera o ardor
do vento
para ser ave,
e cantar.
(Eugénio de Andrade)

Sossegue coração


sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora
calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa
(Paulo Leminski)

Antônio Triste


Esguio como um poste da Avenida
Cheio de fios e de pensamentos,
Antônio era triste como as árvores
Despidas pelo inverno,
Alegre, às vezes, como a passarada
Nos fins da madrugada.
Sozinho, como os bancos de uma praça
Em noites de neblina, Antônio, protegido de retalhos
Com seu cigarro aceso,
Lembrava-me um balão que, multicor,
Se vê no firmamento:
Não se sabe donde veio
Não se sabe aonde vai.
Não era velho
Nem era moço,
Não tinha idade
Antônio Triste.
Quando as luzes cansadas se apagavam
E as trevas devoravam a cidade,
Antônio Triste chorava e cantava:
À luz de um cigarro, bailava e rodava
Pelas ruas desertas e molhadas.
Mas, certa noite um varredor de rua,
Viu muito lixo no chão:
Tanto trapo amontoado,
Quase um balão de São João!
Um resto de cigarro num canto da boca,
A mecha se apagara.
Antônio, o triste balão de retalhos,
Findara!
(Paulo Bomfim )

A Água


Despe, na solidão da tarde,
Tua roupagem manchada de quotidiano,
E deixa que a chuva molhe teus cabelos
E vista teu corpo de escamas de prata.
Pousa, em teus ombros, o manto dos lagos
E colhe no cântaro de tuas mãos
A música dos dias que adormeceram
No fundo de teu ser.
Mármores líquidos moldarão teu corpo.
Nuvem,
Penetrarás a carne da manhã.
(Paulo Bomfim )


EU SOU AQUELE MENINO
Eu sou aquele menino
Que o tempo foi devorando,
Travessura entardecida,
Pés inquietos silenciando
Na rotina dos sapatos,
Mãos afagando lembranças,
Olhos fitos no horizonte
À espera de outras manhãs
-Ai paletós,ai gravatas,
Ai cansadas cerimônias,
Ai rituais de espera-morte!
Quem me devolve o menino
Sem estes passos solenes,
Sem pensamentos grisalhos,
Sem o sorriso cansado!
Que varandas me convidam
A ser criança de novo,
Que mulheres, só meninas,
Me tentam cabular
As aulas do dia a dia?
Eu sou aquele menino
Que cresceu por distração
(Paulo Bomfim)

SONETO XIII


Soneto XIII
Pastor já fui desse rebanho alado
Pastor já fui desse rebanho alado,
Que pelos céus caminha, pensativo,
A ruminar a grama azul do prado
E a desmanchar-se em pensamento vivo.
Pastor já fui de olhar perdido e calmo,
Guardando as reses pelo campo etéreo,
Entoei sobre a campina cada salmo
De um livro que perdi sobre o mistério.
Já fui pastor fora de certo espaço,
Das loucas dimensões em que me banho,
Não sei se é no futuro em que me abraço
Ou no passado desse meu rebanho!
Pastor já fui, hoje arrebanho a mágoa
Do meu rebanho a desfazer-se em água.
(Paulo Bomfim - do livro Transfiguração)

SONETO I


Soneto I
Venho de longe, trago o pensamento
Venho de longe, trago o pensamento
Banhado em velhos sais e maresias;
Arrasto velas rotas pelo vento
E mastros carregados de agonia.
Provenho desses mares esquecidos
Nos roteiros de há muito abandonados
E trago na retina diluídos
Os misteriosos portos não tocados.
Retenho dentro da alma, preso à quilha
Todo um mar de sargaços e de vozes,
E ainda procuro no horizonte a ilha
Onde sonham morrer os albatrozes...
Venho de longe a contornar a esmo,
O cabo das tormentas de mim mesmo.
(Paulo Bomfim - do livro Transfiguração)

Cônjuge


Nunca busquei um amor organizado
Uma viagem pré-determinada
Com início, meio e fim estruturado
Que fecha as portas para a surpresa inesperada

Nunca busquei numa mulher um complemento
Pois para isto somos todos irmãos
Busquei nelas aquele indescritível contentamento
Que irradia fogos de prazer no coração

Nunca busquei um amor eterno
Porque ao morrer perderíamos a eternidade
Procurei aquele fogo de inverno
Que senti quando desvelastes tua beldade

Nunca busquei uma segurança
Porque o mundo é sempre mutante
Imaginei em ti a bem-aventurança
Que te faz transcender infinitamente a cada instante

Nunca busquei um corpinho bem definido
Porque a perfeição é a unilateralidade da criação
Apenas procurei um fervor que despertasse nos sentidos
Aquela essência, inexprimível até pela imaginação.

Nunca encontrei, mas sigo buscando
Aquele olhar que abre as portas da vida
Aquela voz que se exprime cantando
Aquela que de tão certa, sempre me deixa na dúvida.
(Tadany – 12 10 05)


ZAIRA


PATRICIA


PATRÍCIA



FELIZ PÁSCOA....AMIGOS DO BLOG






MAXUEL SCORPIANO




"O coelhinho da Páscoa, vem nós avisar que Jesus está vivo em nossos corações..."

DEREZ


DEREZ


CILMARA


"Para você na Páscoa.
Que a alegria da ressureição
de Cristo esteja em seu coração
hoje e sempre."

CILMARA


"Nesta páscoa com a ressureição de Cristo seja salvo pelo o amor do pai nesta páscoa todas as crianças felizes com o nosso senhor. Amém."






"A Páscoa vem trazendo uma mensagem de paz,
esperança e amor.
Feliz Páscoa!"



"A páscoa nos lembra que Jesus morreu e ressuscitou por nós."
( Desconhecido )


FELIZ PÁSCOA



"A Páscoa não é um dia para comermos chocolates
e sim para comemorarmos a vida e ressureição
daquele que morreu para nos salvar!"
( Desconhecido )

AMAR BONITO



AMAR BONITO
Artur da Távola
Não tema o romantismo. Derrube as cercas da opinião alheia. Faça tiaras de margaridas e enfeite a cabeça de quem você ama. Saia cantando. E olhe alegre para a vida. Recomendam-se encabulamentos; ser pego em flagrante gostando; não se cansar de olhar e olhar; não atrapalhar a convivência com teorizações; adiar sempre, se possível com beijos, "aquela conversa importante que precisamos ter"; arquivar, se possível, as reclamações pela pouca atenção recebida. E nada de “precisamos discutir nossa relação”. Para quem ama feio, toda atenção é sempre pouca. E para quem ama bonito, qualquer atenção glorifica. Não teorize sobre o amor, ame. Siga o destino dos sentimentos aqui e agora. Não tenha medo exatamente de tudo o que você teme, como por exemplo, a sinceridade ou não dar certo ou depois vir a sofrer ou abrir o coração ou contar a verdade do tamanho do amor que sente. Jogue para o alto estratagemas, espertezas, atitudes sabidamente eficazes (não é sábio ser sabido): seja apenas você no auge de sua emoção e carência, exatamente aquele você que a vida impede de ser. Seja você, cantando desafinado, mas todas as manhãs. Falando besteiras, mas criando sempre. Gaguejando flores. Sentindo o coração bater como no tempo do Natal infantil. Revivendo os carinhos que intuiu em criança. Sem medo de dizer, eu quero, eu gosto, eu estou com vontade. Talvez aí você consiga fazer o seu amor bonito, ou fazer bonito o seu amor, ou “bonitar” fazendo seu amor, ou amar fazendo o seu amor bonito (a ordem das frases não altera o produto), sempre que ele seja a expressão de tudo o que você é, e nunca deixaram, ou você não conseguiu, nem soube, ou vai ver que não pôde. Não se preocupe demais com o amor e suas definições. Viva-o, tão somente. Cuide agora da forma. Cuide da voz. Cuide da fala. Cuide do cuidado. Cuide do carinho. Cuide de você. Ame-se o suficiente para ser capaz de gostar do amor e só assim aprender a fazer o outro feliz. Afinal, se o amor existe, seu conteúdo já é manifesto.
P.S.: Recebi da Amiga Gilia GerlinG por e-mail....lindo o texto...maravilho.
Palavras da Amiga:
Amigos especiais,
Compartilho um belíssimo texto de
Artur da Távola, que recebi há pouco.

Abraço honesto,
Gilia

terça-feira, 18 de março de 2008

Canto Alegretense


Não me perguntes onde fica o Alegrete,
segue o rumo do teu próprio coração
Cruzarás pela estrada algum ginete
e ouvirás toque de gaita e de violão.
Pra quem chega de Rosário ao fim da tarde
ou quem vem de Uruguaiana de manhã
tem o sol como uma brasa que ainda arde,
mergulhado no rio Ibirapuitã.
Ouve o canto gauchesco e brasileiro
desta terra que eu amei desde guri
Flor de tuna, camoati de mel campeiro;
pedra moura das quebradas do Inhamduí.
E na hora derradeira que eu mereça
ver o sol alegretense entardecer
como os potros vou virar minha cabeça
para os pagos no momento de morrer.
E nos olhos vou levar o encantamento
desta terra que eu amei com devoção
cada verso que eu componho é um pagamento
de uma dívida de amor e gratidão.
(Antonio Fagundes/Bagre Fagundes)
Ginete: pessoa que monta bem,
com firmeza e garbo
Tuna: qualquer cactácea
(cactus)
Camoatim: vespa

SANTA JOSEFA


Josefa era uma moça escrava,
muito linda e muito religiosa,
que pertencia a um rico senhor,
em Cachoeira do Sul.
Este vivia perseguindo
a jovem negra em busca
de seus amores.
Pura como era,
Josefa resistia a tudo,
até mesmo diante
das ameaças de morte
que vinha recebendo.
Um dia, o patrão
enlouqueceu de desejo:
botou-se na moça
com toda a fúria,
mas Josefa fugia
e lutava em
defesa de sua honra.
Vai daí o patrão
começou a bater nela,
com socos e pontapés,
até que Josefa morreu.
O homem então,
simplesmente mandou abrir
uma cova e aí
enterrar a escrava virtuosa.
Loucos de medo,
os outros escravos
cumpriram a ordem.
Mas - coisa estranha! -
com o passar dos dias
começou a escorrer sangue
do túmulo rústico de Josefa.
A terra vertia sangue!
Os escravos, primeiro,
e outros, depois, deram
em acender velas em
memória da morta e diz-que
o próprio patrão, com o tempo
mandou erguer uma capelinha.
Hoje, bem no centro da bela
e imponente Cachoeira do Sul
ergue-se a capela da Santa Josefa
e atrás, no pátio dos fundos,
está seu túmulo.
Talvez não verta mais sangue,
reconhecida que foi
a sua pureza e religiosidade,
mas atende os pedidos
que lhes fazem milhares de crentes,
que vem até de longe.
Escrevem bilhetes para
a Santa Negra,
que deixam sobre o túmulo,
apertado por um vaso
ou uma pedra.
O túmulo, mesmo,
está sempre limpo e enfeitado.
Ao receberem a graça pedida,
os crentes colocam placas -
inúmeras!
no local, cheios de gratidão e fé.
(Antonio Augusto Fagundes)

MARIA CONGA




O RESSUSCITADO
Esta é uma Lenda Negra registrada por Apolinário Porto Alegre, no seu livro "Vaqueano".
"O pai Curruira, filho do reino de Benin, acaba de morrer com noventa e três anos pelos cálculos de seus companheiros. Morreu, e a tristeza não se estereotipa nos rostos azevichados da cafraria; a angústia e o alarido de carpideiras não cercam o corpo do finado, como última homenagem a seus restos. Ao contrário, o urucongo e o bujamé despedem sons festivos. Cada matrona e cada rapariga se enastrou do melhor que pôde. Colares e manilhas de missangas de coral e vidrilho com caurins entremeados ou pendentes lhe cingem a garganta e os pulsos, fazendo ao reflexo variegado realçar o ébano da cútis. O candombe deslaçado em meneios lascivos, o canto de diapasão áspero e monótono formam o cortejo mortuário em roda do cadáver.
Presidia a festa, que simulava estranha macabra de vampiros ou bruxas, Maria a Conga, a quem a senzala venerava como rainha ou fetiche de um culto profundo.
- Mãe Maria, perguntou um crioulo vivo e esperto como um demônio traquinas como todo moleque -, por que o branco chora quando morre um dos seus e o negro ri?
- O negro, respondeu a respeitável veterana, passando a masca de fumo de um lado para o outro da bochecha - morre aqui para viver na África. Vai ver o berço em que nasceu debaixo das tamareiras e abóboras, vai correr as areias em que brincou em tempo de criança, vai ver a pátria.
O crioulo arregalou ao princípio os olhos, pensou por instantes e, em seguida, coçando a cabeça, a sacudiu em ar de dúvida.
- Quem morre então vive depois? - ajuntou.
- Não crês, menino? Vou contar o que aconteceu ao irmão de Inhabané.
- Mãe Maria vai contar uma história! Hih! Hih! Hih! Venham ouvir.
E de contente saltava como um cabrito. Logo um cardume de cabeças infantis e alegres, mostrando os dentes alvos como as presas do elefante, com as pupilas de gazela avivadas pela curiosidade, ferveu em torno da velha negra.
Músicas, cantos e danças sustaram.
Todos quiseram ouvir a palavra do oráculo de suas crenças, da pitonisa africana que guardava no coração as memórias da pátria distante. Mãe Maria tomou um cepo junto ao fogo. Os mais cruzaram as pernas no chão de argila pousando o cotovelo sobre elas e a face sobre a mão. É a atitude de quem quer ouvir atentamente.
Em pouco nem o mais leve ruído saía do círculo, de gente, cujo centro era a venerando Maria. Até a respiração parecia estar sufocada.
Ela começou pausada como a prudência, solene como um mistério:
- Muitos anos já vão, filhos, desde o tempo em que Inhabané, junto às águas de Cuanza, fazia guerra aos homens do outro lado do mar! Muitos! Quantas vezes já as árvores não despiram as folhas?
- Quem era Inhabané, Mãe Maria? Quem era Inhabané? - interrogaram em coro.
- Rei e senhor de Cassange... A velha que fala agora não era como vêem. Hoje está curvada ao peso dos anos, não caminha, nem pode trabalhar... Oh, naqueles tempos ! Bons tempos em que tinha por cama finas esteiras de Loanda, e vestia lindas roupas de pele e tinha os caurins do mar e pisava o tibar, ambição do branco. Então meu corpo era direito como a palmeira, ligeiro como o gamo dos montes de Kong... Ah! Bons tempos de Cassange que Maria há de tornar a ver!...
- Bons tempos de Cassange! Bons tempos! - repetia multidão com a fidelidade de um eco quando ela curvava fronte senil no seio das recordações e nas saudades do berço.
Depois de instantes de místico recolhimento, prosseguiu:
- Os homens do outro lado do mar venceram a Inhabané, o guerreiro, o valente, a esperança de Cassange. Ele foi preso, ligado e vendido para as terras dos Brasis.
- Mau branco! Mau branco! - rumorejavam os ouvintes com assomos de ódio.
- Inhabané teve um ruim senhor que amou a mulher do cativo e quis tomá-la. Era Kuniah, formosa entre as formosas. E Kuniah resistiu, porque tinha um coração que não era dela, era de Inhabané, seu senhor e seu rei e pai de seus filhos. Kuniah resistiu e teve o corpo cortado ao açoite e foi vendida longe dos filhos e do marido, alegria e sol de sua vida.
- Que dor, Mãe Maria! Que dor! - gemia a turma.
- Inhabané teve uma tempestade aqui - e a velha pôs a mão rugosa sobre o peito -, feriu o perseguidor de Kuniah. Pobre rei! Foi levado ao tronco como o último dos servos, o laço regoou suas carnes, o sangue do príncipe de Cassange ensopou a terra do cativeiro.
Ah! quizília de branco! - E a cafraria saltava de pé, trêmula e fula de cólera, o olhar ardente e sanguíneo, as crispadas pelo ódio e desejo de vingança, o gesto saturado de ameaças.
- Filhos, silêncio! - E desatou um ademane imperativo para que sentassem.
Tudo voltou à imobilidade das cariátides no sopé do antigo monumento.
- O rei de Camange sofreu muito. .. muito! Desonrado procurou um jerivá que recordava a pátria em suas palmas, subiu até o olho do coqueiro, atou um cipó e enforcou-se.
- Pobre Inhabané! - murmuraram em tom pungente.
- Feliz! feliz! repeti, filhos. . . - E atirava longe de si a masca com um movimento de inspirada.
Todos a fitaram pasmados, Ela continuou.
- Ninguém viu dependurado o príncipe, sem chorá-lo. Quando foram no outro dia buscar o corpo para enterrar tinha desaparecido.
- Tinha desaparecido!? - perguntaram boquiabertos.
- É verdade, Inhabané tinha dormido nas terras do cativeiro para acordar nas terras da pátria.
- Quem viu? - interrogou o crioulo que der, motivo narração.
- Maria viu, menino. Era de madrugada. Maria inda era livre, ia banhar-se nas águas do Cuanza. Então Inhabané saíra dentre as palmas de uma tamareira, contemplava como num sonho o país que há tanto deixara e vinha de novo possuir. Desceu e começou uma guerra de morte contra os inimigos. Esperemos, filhos. O pai Curruira foi hoje, amanhã nós iremos. Quem diz é Mãe Maria.
- Amanhã iremos... nós iremos - repetiam profunda fé.
Por momentos trataram do caso, sem comentários, e em seguida foram renovar com mais entusiasmo as festas em tomo do finado.
Eis o que a escrava narrara ao pequeno José Avençal, pouco mais ou menos.
Era uma cena a que havia pouco assistira nos galpões da senzala."
(Texto pesquisado e desenvolvido por
ROSANE VOLPATTO)

ALGARISMO



Passou no concurso foi trabalhar naquele posto de atendimento da Avenida Olegário Maciel. Sua missão, acompanhar desempenho das máquinas e socorrer dúvidas dos usuários clientes. Tarefa um tanto ingrata, mas se é no Banco do Brasil menos mal, emprego estável.Vou pagar conta de telefone, máquina recusa. Pede que eu digite cada algarismo daquele enorme código de barras. Sigo instrução, máquina recusa. Ele á nova na idade e na missão. Isabel ri, pede a conta e diante da máquina mostra serviço. Posiciona o código, máquina recusa. Olha para mim e diz que isso é normal, acontece. Digita aquela quantidade de algarismos, máquina recusa. Estamos os dois decididos a desprezar aquela máquina. Vamos para outra que age da mesma maneira. E assim passamos por três ou quatro máquinas. Pronto para desistir, mais pelo desalento da Isabel, digo-lhe que é assim mesmo, acontece. Ela não aceita. De repente Isabel pede para tentar pela última vez. A máquina aceita. Pergunto o que ela fez. Seu riso é alegria alívio vitória. Mostra aquele algarismo que está assim meio apagado. Ao invés de três, digitou oito. A danada da máquina aceitou e consegui pagar a tal conta.
Belo Horizonte, 13 março 2008
(Escrito por Cadinho RoCo)

NÚMEROS



Somos, matematicamente,
formados
por números irracionais tendendo,
no limite,
a racionalidade integral.

-X-

Múltiplos comuns, primos entre si,
elevados ao quadrado da hipotenusa,
dividem, minimamente,
o raio e a raiz,
quadrados que somos.

-X-

Nessa sequência lógica me perco,
subtraio sem multiplicar,
somo, sem dividir,
encontro,
no infinito paralelo das retas,
a duvidosa união dos conjuntos.
(Ricardo Rayol)
Inspirado no texto "Algarismo" do Cadinho Roco.

RetratO


Eu sou de lua à noite
De sol de dia..
Sou de chuva à tarde..
Sou de mel e vaidade.
Dia escurecido se você não vem
Noite de imensos sóis quando minhas mãos te têm
Sou a exaustão do amor correspondido
Sofreguidão do coração que ama com amor desmedido.
(Anne Baylor)

"EUZINHA" e "TUZINHA"